A nova economia da soja sustentável

A nova economia da soja sustentável

Há casos onde a grandiosidade de um problema, pode se tornar o principal obstáculo para resolvê-lo. Tem sido assim, com o desafio do Brasil de expandir a produção de soja em virtude de uma resposta ao crescente consumo global do grão e seus derivados, que é liderado pela China.

Um dos maiores problemas desta tendência de mercado foi a conversão de grandes áreas de vegetação nativa principalmente no Cerrado. Este bioma tornou-se nos últimos anos o epicentro da expansão da soja no Brasil, com mais de 35 mil quilômetros quadrados de habitat natural, sendo ocupados pelo cultivo da soja entre 1999 e 2017. Em uma parte do Cerrado, na área agrícola conhecida como Matopiba, que engloba parte dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, mais de 80% da expansão da soja nas últimas duas décadas ocorreu sobre a vegetação nativa. A destruição de habitats naturais é a maior causa de emissões de gases do efeito estufa nas últimas três décadas no Brasil, o que deixa claro que essa é uma questão central no combate às mudanças climáticas.

Considerando a imensa escala do problema, as soluções podem parecer inatingíveis, especialmente porque a produção global de alimentos precisará quase dobrar nos próximos 30 anos para acompanhar a demanda crescente.

A boa notícia é que o assunto está na agenda de boa parte das lideranças globais e já existem medidas práticas que podem mudar esse cenário. A chave é focar na abundância existente de áreas já convertidas em pastagem, subutilizadas e com aptidão agrícola. Um estudo recente liderado pela The Nature Conservancy (TNC) e executado em parceria com a consultoria Agroicone identificou que as áreas de pastagens em todo o Cerrado que podem ser convertidas em terras agrícolas é mais do que o dobro dos 7,3 milhões de hectares que serão necessários, nas condições atuais de mercado, para garantir a expansão da soja por pelo menos dez anos.

Para encontrar soluções, primeiro, como se poderia esperar, os preços da terra influenciam – e muito – no que é convertido, e os preços mais baixos nas áreas de fronteira agrícola, onde há preponderância de vegetação nativa, impulsionam a conversão. Mesmo dentro da Matopiba, a terra ocupada por pastagem é três vezes mais cara do que a vegetação nativa adjacente. No entanto, ao considerar os retornos financeiros em longo prazo, o menor custo de aquisição de habitat natural para conversão, em comparação com a conversão de pastagens, pode ser ilusório. Isso porque pode levar três vezes mais tempo para atingir rendimentos máximos de colheitas em terras que foram convertidas a partir de vegetação natural do que em pastagens convertidas.

Com isso, a vantagem financeira de expandir sobre vegetação nativa, ao invés de pastagem, é bastante reduzida – a ponto de ajustes nas condições de financiamento poderem ter um impacto significativo na escolha da área sobre a qual a expansão da soja ocorrerá. Se acrescentarmos a isso o fato de que as cadeias de fornecimento agrícolas têm, cada vez mais, buscado produtos livres de desmatamento, a economia feita com a aquisição de áreas com vegetação nativa para conversão em soja, perde ainda mais seu apelo.

Nesse mesmo sentido, incentivos econômicos podem ser usados para melhorar os retornos da produção de soja realizada em pastagens arrendadas ou adquiridas. Mecanismos financeiros, como financiamentos de menor custo e maior prazo, podem ajudar a mudar o racional da expansão em favor dos modelos sem conversão de vegetação nativa e podem servir como complementos à crescente demanda do mercado por produtos mais sustentáveis. Assim, este modelo estimularia o financiamento para a aquisição e conversão de pastagens, em detrimento da aquisição de áreas preservadas. O Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono) pode ser fortalecido para incluir a possibilidade de financiar a conversão de pastagens em terras cultiváveis.

Esses mecanismos também podem ser utilizados para auxiliar os agricultores na adoção de técnicas comprovadas para melhorar o gerenciamento de solos e insumos, e que podem aumentar, segundo estudo realizado pela TNC em parceria com a Embrapa, o rendimento da produção de soja em até 25%, ao mesmo tempo em que preservam a saúde do solo. Este aumento de produtividade ajudaria os produtores a atender às demandas globais de soja, potencialmente sem a necessidade de expansão da área produtiva.

Essa abordagem também pode beneficiar os pecuaristas. Outros estudos da TNC indicam que estes produtores podem aumentar seus lucros em mais de 40% arrendando uma parte de suas pastagens pouco aproveitadas para a produção de soja e utilizando a renda do aluguel no investimento de práticas agropecuárias que lhes permitam aumentar a produção e a qualidade da carne em uma área menor. Já os agricultores que integram a colheita às suas operações pecuárias podem aumentar seus lucros em até 50%.

Somando todas estas ações – redirecionamento da expansão da soja para as pastagens disponíveis e melhoramento da produtividade sustentável das fazendas de soja existentes – é possível garantir que a agricultura brasileira esteja apta a atender à demanda futura de alimentos sem derrubar uma única árvore.

Willian Meniti

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